O senhor F trata dos pés de toda a família, haja quem precise. Com umas mãos de santo. Durante dois anos, de 15 em 15 dias ou de 3 em 3 semanas, lá ia eu para retirar parte da unha do dedo grande de ambos os pés, por causa de um fungo. Hoje em dia é mais umas unhas encravadas. O senhor F já sabe que eu sou um maricas de primeira. Põe sempre uma dose extra do spray anestesiante. Conversa comigo, enquanto aquilo faz efeito, sobre o seu Sporting (é melhor nem falar hoje do meu Benfica) e as suas duas netas, que estão em Medicina. Das vezes que já tratou médicos ou os teve ali a observá-lo, a tentarem aprender algo que não se aprende, antes nasce com a pessoa. Depois, lá chega a hora de, com o bisturi na mão, desencravar as unhas. Tremo e fecho mentalmente os olhos, continuando extremamente atento aos movimentos daquele senhor que já terá os seus sessentas e muitos, setentas. No final, com Betadine nos dedos e um alívio ligeiro, pergunto-lhe quanto lhe devo. Nada, meu jovem, paga para a próxima. Pago sempre para a próxima.
gosto deste post. foge À temática habitual do eu / ela e à da análise do quotidiano e dos problemas do país. É uma pequena homenagem a um dos teus pequenos heróis. Acho que é sempre positivo quando conseguimos escapar ao nosso registo habitual. abraço
ResponderEliminarCaro, antes de mais, as minhas desculpas pelo atraso na publicação do comentário. Não é fácil fazer/escrever algo diferente, de facto. Penso que nos habituamos a uma zona de conforto, a, como dizes, um certo registo, mesmo não deixando de escrever bem. E esquecemo-nos que há muito mais. Por vezes, também é preciso as situações acontecerem e lembrarmo-nos delas quando nos sentamos para escrever algo.
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