Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

As idas aos centros de saúde (em certa medida, podia ser também ao Hospital)

O meu, pelo menos, tem um ar decrépito, digno de um filme de série B realizado pelo Quentin Tarantino. De dia, com o movimento, a coisa ainda tem um outro ar; pululam as médicas de pacotilha, de cabelo apanhado num carrapito, vestidas de preto, comparam-se listas intermináveis de sintomas e doenças e analisa-se ao pormenor, qual Jorge Jesus da saúde, a performance de cada médico.

Numa noite como hoje, por exemplo, o relato não passa muito ao lado disto: subo ao primeiro andar e entro na sala de marcação/espera, mal iluminada porque dois terços das lâmpadas estão fundidas. A Uma Thurman deve estar escondida algures. Pago cinco euros e tenho que estar atento caso chegue algum doente a chamar por mim; por breves instantes somos todos funcionários públicos porque o altifalante está avariado. Nem em cinco minutos chega a minha vez. A leitura d'A Cabra fica para mais tarde mas já sei que o meu artigo levou uma mudança de parágrafos e não deve, para variar, ter ficado bem [mais tarde verifiquei que, de facto, não ficou]. Tenho que ficar de pé, no corredor, à espera que o doente à minha frente saia (a posição é rotativa). Entro no consultório, sento-me e nem aqueço o lugar, dois minutos depois, mais coisa menos coisa, estou cá fora, depois de uma explicação técnico-táctica sobre ter que ignorar os sintomas porque sou muito novo para ter coisas destas. Agora percebo o grande erro de nunca ter posto os pés numa aula de anatomia. É que, pelo menos, a explicação que ela fez sobre o mal que me aflige poderia ter feito mais sentido do que as palestras do Villas-Boas no Chelsea.

Sabem aquela lenga-lenga de haver uma comunicação médico-paciente compreensível? É tudo treta. A senhora está com pressa de ir para casa e quer-se assegurar que, quando acabar o serviço, já não há ninguém no escuro da sala de espera. Não há dinheiro para pagar à Roche nem (agora) aos chineses. Tal como nem o dinheiro das propinas nem as notas de entrada serão, alguma vez, garante de bons profissionais.

0 comentários:

Enviar um comentário