(Hour of Need – David J. Roch)
Não
me recordo ao certo do teu vestido e não quero cometer, aqui, nenhuma
imprecisão. Que ele fique gravado na minha memória como uma fotografia difusa,
desfocada. Se for a preto e branco, pelo menos, não me esquecerei das cores.
Lembro-me, isso sim, da textura, suave como a água seria se assumisse essa
forma. Era um domingo ao final da tarde e fui buscar-te a casa. Segredei-te ao
ouvido que tinha uma surpresa para ti e, gentilmente, vendei-te os olhos.
Percorreste, com a tua mão, o meu braço até te sentires segura na minha.
Pedira
o restaurante a um amigo meu, só por essa noite. Fábrica dos Sentidos, penso
que era como se chamava. Já não sei ao certo nem a fachada conserva qualquer
sinal, indicação daquele que foi o seu nome. Ficava na tua cidade e, por isso,
a viagem foi curta. Já estava tudo preparado, a mesa isolada no centro da sala,
o perfume de uma pasta que escapava
entre as frinchas de uma porta batente, as velas que ardiam tremeluzentes. Não
sei se consigo descrever o sorriso dos teus olhos, que me fez sentir único.
Puxei a cadeira para que te sentasses e servi-te de vinho, branco. Não quero
perder tempo a descrever o jantar, as conversas que já não existem, as mãos que
já não se tocam, esta fachada cinzenta e suja. Quero falar do quanto te amei.
Posso? De um amor que me teria feito morrer por ele. De onde veio esse amor?
São tantas as perguntas que carrego, as questões que um dia mais tarde, quando
te voltar a encontrar, quero colocar. O quanto te amei...
O
teu riso cristalino que me arrepiava. A forma como gostava de pentear o teu cabelo
com as minhas mãos, subir e descer os caracóis como se contornasse as nuvens
num céu azul [que não está], e deixá-lo cair em pequenas ondas por uma das
faces do teu pescoço, deixando a outra descoberta, virgem, chamando por mim. E
o teu sorriso, aquele que tantas vezes se escondia, brilhava nos meus olhos,
nos olhos que eram teus, que te mostravam os meus sonhos. Os meus pequenos e
grandes desejos, como lhes chamavas.
O
jantar terminou e saímos do restaurante. A noite arrefecera e coloquei o meu
casaco pelas tuas costas. Paraste e entregaste-me um embrulho. Uma prenda para ti. Um livro, um abraço.
Meu deus, ter-me-ias tido sempre, sabes? Num sentido pervertido e retorcido,
deste-me e tiraste-me as palavras, aquelas que seriam tuas para sempre. Começa
a chover, a água percorre, sem rumo, a fachada abandonada.
Estamos
dentro do carro, outra tarde chega novamente ao fim. Metaforicamente, é um
final de uma vida, cuja luz se esvai sem eu me aperceber. Deitas a cabeça nas
minhas pernas enquanto leio o livro que me deste, folheando silenciosamente as
páginas, absorvendo todas as sensações. Paro num texto que grita nós. E fico a
ouvir as gotas criarem um som metálico à medida que a sua longa viagem termina.
Fecho os olhos por instantes que virei a desejar serem eternos, dos quais tu
nunca despertes. Sou egoísta...
Leio-te
um excerto: Por isto e por mais do que
isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí [sempre estive aí]. Estamos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo
que somos mistura-se.* Só que tornámo-nos opostos naquilo que sentíamos.
Branco e preto. Luz e escuridão. Céu azul e céu plúmbeo. Um sorriso e uma
lágrima.
Da
chuva que cai lá fora. Já é noite. Beijo-te e não sei que é o último beijo. E
ainda bem que não sei. Mas se soubesse... Se soubesse, tinha saído do carro e
ter-te-ia tomado nos meus braços, no meio da rua, não te largando. Beijando-te
entre as gotas que nos delineariam. Sais do carro e sinto que há algo mais que
te quero dizer. Chamo-te, digo o teu nome à tua vista pela derradeira vez.
Voltas atrás, abres a porta e olhas-me, curiosa. Amo-te...
*José Luís Peixoto, em Abraço